sábado, 16 de abril de 2011

Japão

Por Monja Coen Quando voltei ao Brasil, depois de residir doze anos no Japão, me incumbi da difícil missão de transmitir o que mais me impressionou do povo japonês: kokoro.

Kokoro ou Shin significa coração-mente-essência

Como educar pessoas a ter sensibilidade suficiente para sair de si mesmas, de suas necessidades pessoais e se colocar à serviço e disposição do grupo, das outras pessoas, da natureza ilimitada?

Outra palavra é gaman: aguentar, suportar. Educação para ser capaz de suportar dificuldades e superá-las.

Assim, os eventos de 11 de março, no nordeste japonês, surpreenderam o mundo, de duas maneiras:

A primeira pela violência do tsunami e dos vários terremotos, bem como dos perigos de radiação das usinas nucleares de Fukushima.

A segunda pela disciplina, ordem, dignidade, paciência, honra e respeito de todas as vítimas.

Filas de pessoas passando baldes cheios e vazios, de uma piscina para os banheiros.

Nos abrigos, a surpresa das repórteres norte-americanas: ninguem queria tirar vantagem sobre ninguém. Compartilhavam cobertas, alimentos, dores, saudades, preocupações, massagens. Cada qual se mantinha em sua área. As crianças não faziam algazarra, não corriam e gritavam, mas se mantiam no espaço que a família havia reservado.

Não furavam as filas para a assistência médica - quantas pessoas necessitando de remédios perdidos, mas esperavam também sua vez para receber água, usar o telefone, receber atenção médica, alimentos, roupas e escalda pés singelos, com pouquíssima água.

Compartilhavam também do resfriado, da falta de água para higiene pessoal e coletiva, da fome, da tristeza, da dor, das perdas, de verdura, leite, da morte.

Nos supermercados lotados e esvaziados de alimentos, não houve saques. Houve a resignação da tragédia e o agradecimento pelo pouco que recebiam . Ensinamento de Buda, hoje enraizado na cultura e chamado de Kansha no kokoro: coração de gratidão.

Sumimasem é outra palavra chave : Desculpe, sinto muito, com licença. Por vezes me parecia que as pessoas pediam desculpas por viver. Desculpe causar preocupação, desculpe incomodar, desculpe precisar falar com você ou tocar à sua porta. Desculpe pela minha dor, pelas minhas lágrimas, pela minha passagem, pela preocupação que estamos causando ao mundo. Sumimasem.

Quando temos humildade e respeito pensamos nos outros, nos seus sentimentos, necessidades. Quando cuidamos da vida como um todo, somos cuidadas e respeitadas.

O inverso não é verdadeiro: se pensar primeiro em mim e só cuidar de mim, perderei. Cada um de nós, cada uma de nós é o todo manifesto.

Acompanhando as transmições na TV e na internet, pude pressentir a atenção e cuidado com quem estaria assistindo: mostrar a realidade, sem ofender, sem estarrecer, sem causar pânico. As vítimas encontradas vivas ou mortas, eram gentilmente cobertas pelos grupos de resgate e delicadamente transportadas - quer para as tendas do exército, que serviam de hospital, quer para as ambulâncias, helicópteros, barcos que os levariam a hospitais.

Análise da situação por especialistas, informações incessantes à toda população, pelos oficiais do governo e a noção bem estabelecida de que "somos um só povo e um só país."

Telefonei várias vezes aos templos por onde passei e recebi telefonemas. Diziam-me dos exageros das notícias internacionais, da confiança nas soluções que seriam encontradas e todos me pediram que não cancelasse nossa viagem em julho próximo.

Aprendemos com essa tragédia o que Buda ensinou à dois mil e quinhentos anos: a vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente.

Reafirmando a Lei da Causalidade podemos perceber como tudo está interligado e que nós humanos não somos e jamais seremos capazes de salvar a Terra. O planeta tem seu próprio movimento e vida. Estamos na superfície, na casquinha mais fina. Os movimentos das placas tectônicas não tem a ver com sentimentos humanos, com divindades, vinganças ou castigos. O que podemos fazer, é cuidar da pequena camada produtiva, da água, do solo e do ar que respiramos. E isso já é uma tarefa e tanto.

Aprendemos com o povo japonês que a solidariedade leva à ordem, que a paciência leva à tranquilidade e que o sofrimento compartilhado leva à reconstrução.

Esse exemplo de solidariedade, de bravura, dignidade, de humildade, de respeito aos vivos e aos mortos ficará impresso em todos que acompanharam os ventos que se seguiram a 11 de março.

Minhas preces, meus respeitos, minha ternura e minha imensa tristeza em testemunhar tanto sofrimento e tanta dor de um povo que aprendi amar e respeitar.

Havia pessoas suas conhecidas na tragédia? me perguntaram. E só posso dizer: todas. Todas eram e são pessoas de meu conhecimento. Com elas aprendi a orar, a ter fé, paciência, persistência. Aprendi a respeitar meus ancestrais e a linhagem de Budas.

Mãos em prece (gassho)


Monja Coen


(Essa emocionante lição de vida, foi-me enviada por e-mail e junto a este, um pequeno comentário que resume a nossa atual realidade.


- Que pena estarmos tão distante ainda, desta civilidade. Acho que eles pecam pelo excesso de disciplina com as crianças, mas nós pecamos pela falta dela.


Aos amigos(as) já de longa data e aos amigos(as) recém-chegados(as), desejo um fim de semana repleto de amor, paz e sabedoria.

Abração!!

9 comentários:

disse...

"A vida é transitória, nada é seguro neste mundo, tudo pode ser destruído em um instante e reconstruído novamente".
Quantos ensinamentos no texto. quanto temos que aprender o povo oriental. Mas como você disse estamos ainda muito longe. Mas creio que o excesso de disciplina é que gera tanto amor pela vida, pelos seres humanos e pela natureza em si.
Bjs de um lindo fim de semana minha querida amigona!
Ah! vou assistir o filme, minha filhota foi e adorou também!

Iram M. disse...

Tenho lido algumas coisas em relação essa disciplina do povo japones e confesso que até me causa uma inveja e um desejo enorme que o meu povo também fosse assim.
Quando assisto as tragédias no Brasil e vejo os saques, a falta de respeito, o sensacionalismo da televisão em cima da dor dos outros, me choca.
Temos muito o que aprender ainda com outros povos.

Lindo o texto, amiga e obrigada por ele.

Beijos

Eliana disse...

Obrigada!
Pelo texTo ,muito bom!Temos muito a aprender,semprre e pelos votos!
Bjs

Adriana H. Tavares disse...

Boa noite, passei aqui para conhecer seu espaço e amei cada post... E aproveitando convido você a fazer parte da corrente do bem, ajudando mamães carentes. Quer saber como? acesse: www.chabebevirtual.blogspot.com
Também tem sorteio lá no nosso cantinho.
Seja sempre bem vinda!

Lore♥ disse...

Hola Fernanda!
ayyy que lindo!!
que bello texto
gracias por este post!!
un aprendizaje para todos
besitos
buen martes para vos
cariños
Lore

ANA LÚCIA disse...

Gostei muito do texto. Diz tudo e nos faz refletir. O povo japonês tem seu valor!
Abçs,
Ana

ANA LÚCIA disse...

Gostei muito do texto. Diz tudo e nos faz refletir. O povo japonês tem seu valor!
Abçs,
Ana

Lore♥ disse...

Hola mi amiga querida!!
pase para desearte una feliz pascua de resurrección!!!!
no podia dejar de agradecerte por tu linda visita....y felicitarte por tus trabajos
un abrazo grande
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....QUE LA ELECCIÓN DE TODOS SEA LOGRAR PARA LA HUMANIDAD ENTERA UN FUTURO DE AMOR Y ESPERANZA ....
con cariño
Lore

Márcia Basílio disse...

Fernanda,
Tenha uma Páscoa bem inspirada, com criatividade e muita alegria.
Bjs,